domingo, 25 de abril de 2010

La vie en green

Existem pessoas que são diferentes. Elas são verdes. Assim como os alienígenas, que também são verdes. De fato, é bastante comum que as pessoas verdes às vezes sejam consideradas extraterrestres pelas pessoas que não são verdes.

Alienígenas são, na maioria das vezes, seres verdes que vem de outro mundo e atacam o planeta Terra. Iguais as pessoas que não são verdes fazem. A única diferença entre os alienígenas e as pessoas não verdes, é que os alienígenas vem, destroem a Terra e depois voltam para seu planeta, enquanto que as pessoas não verdes destroem o planeta Terra para depois não terem para onde ir. O que em uma escala de bom senso e inteligência coloca as pessoas não verdes abaixo dos alienígenas.

No planeta terra, junto com as pessoas não verdes, vivem as pessoas verdes, que fazem de tudo para que o planeta, assim como elas e os alienígenas, fique mais verde. Mas as pessoas não verdes, das quais fazem parte alguns políticos, empresários, cientistas e formadores de opinião, continuam não dando atenção para o planeta e insistindo que as catástrofes ambientais que estão acontecendo nada tem de extraordinário ou incomum. Além de dizer também que a causa verde não é de primeira importância, eles continuam dizendo que nós, pessoas verdes somos seres de outro planeta.

De fato nós somos. Pertencemos a outro planeta onde as águas são limpas, o ar é saudável e o clima equilibrado. E nós, de alguma forma sabemos que é a este planeta que já pertencemos um dia, e não a esse, que nos é estranho.

Acontece que chegará o dia em muitas pessoas levantarão suas antenas alienígenas para o que está acontecendo no mundo e se tornarão verdes também. Nesse dia, nós, pessoas verdes, seremos tantas que pouco a pouco substituiremos as pessoas não verdes em seus cargos de poder. Incluindo os fazendeiros que desmatam a Amazônia para (mal)criar gado e as pessoas que pescam baleias para fazer sushi – que em uma escala, está acima do filé amazônico por emitir menos CO2.

Pois bem, nesse dia, as pessoas não verdes, que em uma escala de bom senso e inteligência já estão abaixo dos alienígenas, ficarão também abaixo das pessoas verdes. E por emitirem mais CO2 do que o sushi de baleia e o filé amazônico, vão estar no último lugar da lista, até que por fim, mal lembraremos delas.

E quando, no futuro, contarmos pros nossos filhos que um dia existiram pessoas não verdes que destruíam o próprio planeta, eles não vão acreditar e perguntarão se isso realmente existiu. Assim como hoje eles nos perguntam se alienígenas existem.

Responderemos então que eles acreditem no que quiserem, mas que entre alienígenas e pessoas não verdes, eles prefiram os alienígenas, que ao menos são verdes como nós e por isso são mais deste planeta do que as pessoas não verdes, seres definitivamente de outro mundo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Cinema, aspirinas e Lula.

Até o Lobão perguntou pra Marina Silva o que ela achava do curioso projeto de levar o filme do Lula Brasil afora este ano, principalmente para lugares onde não existem cinemas, e algumas vezes nem televisão.

Sim, até o Lobão perguntou, porque essa é uma pergunta natural de se fazer quando sabemos que sob o pretexto da baixa bilheteria atingida pelo filme e pela falta de acessibilidade à sétima arte em comunidades mais pobres, o “filho do Brasil” deve varar estradas em caminhões e aportar em lugares onde quiçá energia elétrica é coisa tão rara quanto o conhecimento político a respeito de nosso país.

É lógico que a proposta vem atrelada a um projeto que promete colocar outros filmes em cartaz, mas isso não é suficiente para abafar o peso de um Cine-Lula a todo vapor em pleno ano eleitoral. As sessões a preços populares em torno de 2 reais que os filmes terão nos fazem lembrar aqueles festivais relâmpago de filmes nacionais, que, mesmo em prol de uma democratização do cinema nunca saíram em caravana, como fará a história cujo nome reverbera como uma frase de campanha.

A pergunta que paira no ar não se refere ao filme ou às motivações que levaram a fazê-lo. Não é errado fazer um filme de viés político e mostrá-lo por aí, de jeito nenhum. A própria Marina Silva lembrou que muitas vezes a fronteira que separa a arte do engajamento político é tênue e difícil de ser delineada. Mas eu nunca ouvi falar de projetos de “resgate” a belíssimos filmes brasileiros que foram assistidos em salas repletas de poltronas vazias.

Se quisermos, por exemplo, tentar dimensionar um pouco do poder da imagem da televisão no Brasil, podemos começar lembrando da Copa de 70, quando muitas pessoas viam pela primeira vez a imagem da minúscula bola na tela dar vida à sala de estar. E agora, muitas das pessoas que ainda hoje não tem por hábito a imagem da TV ou do cinema serão apresentadas ao líder que nasce e cresce diante dos olhos em um tamanho de homem bem maior do que as polegadas de todos os homens que nascem e crescem por aí.

É por isso que, inevitavelmente, me lembrei do filme “Cinema, aspirinas e urubus”, que conta a história de uma tela em movimento pelos confins televisivamente virgens do Brasil nos anos 40, passando filmes em preto e branco sobre a descoberta e os benefícios da aspirina e vendendo o milagroso remédio até para quem não sabia exatamente o que era uma dor de cabeça.

Talvez por isso a pergunta feita pelo Lobão e por outros mais, espero eu, aponte para a suspeita de que o filho do Brasil conversando com seus camaradas ao vivo e a cores em ano eleitoral, seja um espetáculo mal dosado para os que tem pouca ou nenhuma vacina contra a vivacidade de imagens tão reais quanto a pálida realidade.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Reencantamento

Há a necessidade de reencantamento por que há desencanto. Há desencanto aqui e ali. Relações encantadoras se desmancham, cidades e lugares cheios de história tem sua magia dissolvida, pessoas vão amargando aos poucos junto com seus dissabores cotidianos, pensamentos e assuntos encantadores caem em desuso e casamentos vão azedando como leite esquecido na geladeira.

Nos desencantamos em relação ao país, à justica, ao emprego em que estamos. Somos seres desencantados em relação aos sonhos que tínhamos na época em que éramos mais animados do que hoje, e que todas as possibilidades eram de fato, possibilidades possíves, pleonásmicamente falando. Já fomos mais animados, mais vivos e mais otimistas em relação a tanta coisa. Reanimar, em termos médicos, é aquilo que fazem conosco quando estamos num estado de franca proximidade com a morte.

O que é ser alguém verdadeiramente animado então? É ser utópico? romântico? saudosista? E estar encantado? Seria o encanto um estado pueril de delírio próximo à fuga da realidade? ou um estado de felicidade forçada e anormal? O encantamento só pertence aos chamados sonhadores, levianos, irreais e frágeis? Ou seria aquilo que começou nos anos 60 e deixou tudo azul e todo mundo nu? Não. Encantamento não é isso.

Encantamento é uma habilidade, uma sensatez e uma capacidade muito mais louvável, realista e magnífica do que imaginam os desencantados. Encantamento é sutil, é sorrir por dentro, com nossa respiração, ossos e músculos. Ser encantado é o prolongamento diário da experiência de estar verdadeiramente encantado com algo. É reverenciar o bom, o belo, o verdadeiro e o nobre. É agradecer por estar vivo, é respeitar a natureza por tudo que ela é apesar do que resta dela, é louvar boas ações e reconhecer boas pessoas. É ter a coragem de sair de casa todos os dias como quem procura pérolas na lama e quando passa por estas pérolas, as reconhece, respeita e cuida, com vigor, paciência e amor inabaláveis.

Tenho amigos que fazem “reencantamento ambiental”, tarefa notável, feita de ações simples como botar um punhado de terra na mão de uma criança e mostrar que o que ela come vem daí. Sim, as coisas não nascem no supermercado. Reencantar seres desencantados, mornos e embotados é uma tarefa árdua e necessária. Necessária porque ser encantado com o que existe de bom é a única condição para que o bem continue existindo. O poço do desencanto aguarda ao lado. As placas do conformismo, da alienação, da fuga pela fruição do prazer, do status quo, da normalidade e do menor esforço indicam o caminho deste poço. Mas é difícil ver estas placas quando há miopia.

Desencantamento é a imagem de um homem sozinho e mal humorado que cortou a árvore de seu quintal por causa da sujeira das folhas. É a imagem de um funcionário público empurrando causas importantes pra dentro de uma gaveta e saindo da mesa para ligar para a namorada. É chegar em um lugar novo e ser recebido sem nenhum calor. É dar um animal de presente para o filho e se desfazer dele como um brinquedo que perdeu a graça.

Vemos o encanto pela vida escapar pelos dedos. Mas só fizemos da vida algo sem encanto quando paramos de acreditar nele, sabe-se lá por que, preferimos esquecê-lo, fingir que isso não existe e que não é sério o bastante pára nós, pessoas ocupadas que precisam ganhar a vida. É por isso que reencantar é parar de morrer aos poucos e recuperar nossa humanidade perdida, custe o que custar.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O lado verde da força

A onda verde e todas as suas tendências hoje estão tão em alta quanto tantas outras modas e comportamentos já estiveram, mas talvez, com muita sorte, essa onda verde estacione e fique para a história. Porque ela não é só uma tendência como muitos jornais, revistas e opinólogos insistem em dizer. Ela não é só bonitinha. Ela surge como necessidade, e com a urgência de um par de óculos em tempos míopes. A revista Sustenta! em sua oitava edição mostrou com uma clareza que ainda é rara, a diferença entre enfocar a sustentabilidade como uma vertente de ação dentre tantas outras e enfocar tudo o que existe de forma sustentável: ciência, política, indústria, arte. O que no fim das contas, quer dizer: fazer direito tudo que fizermos daqui pra frente.

Sustentabilidade é uma palavra bonita, mas que se torna séria se olhada através de lentes mais lúcidas, sustentabilidade quer dizer: garantir o sustento, a sobrevivência das espécies como um todo. Incluindo a espécie humana, lembrando mais uma vez o óbvio: somos parte da natureza também, e não uma instância separada e superior como crêem os míopes. Quem olhar ao redor verá que a sobrevivência de todas as espécies anda trêmula e frágil por toda parte. De opção à necessidade, ser sustentável hoje, significa ir contra a própria destruição

O clichê das tragédias urbanas

Existem situações que não cansam de se repetir nas cidades quando, cada vez mais frequentes, irrompem enchentes, casas alagadas e barrancos vindo abaixo com tudo e todos. Seja no asfalto da rua ou na tela da tv, segue-se sempre a mesma indignação fervorosa, que se volta contra o poder público e, sem remédio, faz mais alto o lamento da tragédia, do infortúnio e da fatalidade.

A mídia principalmente, explora muito bem estas duas vertentes dando vazão à voz que reforça a superficialidade e propaga, mais uma vez, o erro da desinformação.

A culpa é de quem? Dos governantes que hoje se acham empossados tentando consertar o que se deve há séculos de estreiteza? Vamos culpar quem, se vivemos em cidades que desde a primeira pedra não atentam para uma ocupação inteligente do espaço? Apinhadas entre avenidas cinzentas, asfalto e lixo, nossas cidades foram construídas para o caos. Se todo o verde que absorve a água da chuva foi ceifado há tempos do ambiente urbano, para onde querem que vá toda essa água?

A culpa é dos rios, represas e córregos estrangulados? Ou será que o comportamento de cheia de um fluxo de água com alagamento de suas margens é algo antinatural? Podemos perguntar a alguns povos da antiguidade, que viviam às margens dos rios, e que com pouca instrumentação e pretensão, sabiam bem mais do que nós.

Se a culpa é dos governantes, vejamos que incrível surpresa temos ao saber que o poder público atua por meio do trabalho e das idéias de cidadãos comuns, engenheiros, arquitetos, agrônomos, economistas...que em sua maioria só agora atentam para uma construção do espaço saudável e inteligente. Então, a culpa é de quem?

Ocupamos todas as encostas dos morros. Falar do problema social que estes morros carregam não resolve o problema. A natureza é sempre natureza, sempre foi e sempre será. Domá-la é uma ilusão tão grande como aquela que fez e ainda faz pouco das advertências dos ambientalistas, que aliás, já avisaram: vai chover, e muito.

De onde vem a tragédia então? Vamos chorar uma tragédia que nós mesmos escolhemos enquanto cidadãos, geração após geração? Enquanto isso a voz do repórter anuncia mais uma fatalidade na cidade transbordante, mais uma vez, lamentando os efeitos, mais uma vez, desconhecendo as causas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Avatar e a Cultura da Guerra

De que adianta o coro dos bons modos, da cidadania, da ética e da Xuxa, dizendo que é bom ser bonzinho com nossos amiguinhos se vivemos em uma sociedade impregnada por uma cultura de guerra? Guerra? Como assim dirá você? E não só é uma cultura de guerra, como também é uma cultura da agressividade e do domínio.

Vejamos primeiro as crianças, e vamos deixar as meninas de lado nesse momento, cuja característica que principalmente as difere dos meninos na infância e pré adolescência é o encaminhamento para uma feminilidade exaustivamente preenchida pela moda, pela beleza, pela busca de atenção e poder, e obviamente, pela sedução a qualquer preço do macho dominante. Mas vamos deixar as meninas de lado e vamos falar dos meninos, obviamente de modo geral.

A naturalidade com que um menino de 5 anos imita um revólver com a mão e distribui sonoros tiros cinematográficos sobre seus coleguinhas, é a mesma com a que os pais presenteiam seus filhos com toda sorte de artefatos e ícones de guerrra e violência: armas, bonecos armados, tanques de guerra, desenhos animados repletos de pancadaria e lutas, que, quer sejam entre o bem e o mal, aparecem cada vez mais agressivas e cotidianas. Estes mesmos pais fervem de dor de cabeça em uma reunião de colégio quando ficam sabendo que seu anjinho mordera a orelha do coleguinha no recreio.

Por essas e outras, é bem possível que o filme Avatar tenha pego muitos pais de surpresa, que, ao levarem seus filhos para mais um filme de ação cheio de efeitos especiais, acabaram levando de brinde uma lição sobre como a bestialidade glamourosa da guerra, feita de soldados durões e um completo aparato bélico açougueiro, talvez não seja um bom negócio. Não só essa bestialidade, mas bem como a ideologia de progresso e dominação que a sustenta, que é a ideologia do mundo real onde vivem imersos e desacordados pais e filhos. É uma pena que a maioria dos pais não vão sequer se lembrar dessa lição quando levarem seus filhos para tomar a próxima dose de violência gratuita nas telas do cinema.