segunda-feira, 26 de março de 2012

Descoberta de si

Um homem qualquer, tão peculiar como eu e você, acorda de manhã, toma café, sai para a rua e lê na sua frente um cartaz publicitário que lhe lembra de duas coisas: que ele é livre, e necessariamente, feliz. 

O vai e vem dos outdoors e comerciais de TV durante o dia, relembram constantemente seu direito, quase dever, de ser livre e feliz. O homem encontra os amigos, e todos eles parecem felizes e livres. E o homem se diverte como nunca. Nunca durante toda a história da humanidade nos divertimos tanto.

Mas no intervalo entre as diversões o homem não se sente feliz. Aturdido, vai ao psicólogo e paga quanto for necessário, para enfim conseguir ser feliz. O psicólogo repete-lhe as mesmas palavras, que pesam fundo em sua consciência: liberdade e felicidade. “Você é livre, tem o direito de ser feliz”.  Como alguém pode não conseguir ser feliz agora, nos tempos em que aparentemente temos toda a liberdade de que precisamos para fazer isso acontecer?

As duas palavrinhas mágicas, liberdade e felicidade, continuavam andando juntas, mas o homem não sabia explicar porque, nem como usá-las. Liberdade que não lhe traz felicidade, que seria?

Não é privilégio de uma única geração ser movida pela palavra liberdade. Muitos vieram e muitos virão, gravitando em torno do que parece ser muito mais do que um mero desejo. Custo a crer que haja pessoa cujos olhos não esbocem um mínimo interesse, nem que seja um leve tremeluzir das pupilas, ao som dessa palavra.

Houve um tempo em que a consciência latente acerca de uma classe opressora parecia nos mostrar o mais perfeito desenho de um desejo de liberdade– ali parecia estar todo o impedimento da liberdade individual e coletiva. O indivíduo era oprimido também enquanto coletivo, e esse domínio se fazia perceber de forma predominante material, e mais tarde soubemos, também de forma emocional e psicológica. 

O que não sabíamos, é que a investida contra os problemas oriundos da luta de classes, não era outra coisa senão mais um rompante, fração de um desejo maior pela liberdade do ser, e da manifestação deste em sua plena capacidade. A hierarquia social, por mais esmagadora que fosse, ainda não dava conta de reter toda a liberdade da qual um homem pode sentir falta, era apenas mais um grilhão entre muitos.

Esse mesmo desejo por liberdade eclodiu de diferentes formas ao longo da história, e não sem motivo. No renascimento, no iluminismo, na reforma religiosa europeia, nas revoluções do leste europeu, nas latino americanas, nas primaveras ao redor do mundo.

Em resposta, a história tratou de dar o talhe mais adequado a cada geração que se levantou contra estas formas de opressão à liberdade. Sempre soubemos da liberdade pelo que ela não era, e sempre a imaginamos quando não a tínhamos. Sua busca sempre nos acompanhou, quase como uma função vital, algo natural, inerente, constituinte.

Após algum tempo, ainda no passado, certos clamores pela liberdade individual pareciam enfim ter sido ouvidos: foi quando o horizonte do conhecimento parecia apontar a direção certa de uma liberdade e felicidade, conquistada a partir do direito de pensar e criar por si próprio, sem o controle de instituições que pareciam sufocar toda e qualquer aspiração à liberdade e ao desenvolvimento da individualidade.

Um pouco depois e de um jeito parecido, a liberdade coletiva também parecia estar muito próxima, quando passamos a usar e gostar mais da palavrinha “democracia”. Mas curiosamente, a democracia (um dos apelidos que demos para liberdade coletiva) não conversou muito bem com a conquista da emancipação do pensamento – um dos apelidos que havíamos dado até então para liberdade individual.

Voltando lá atrás, o tempo passou.  Veio a ciência, o método, a guerra, as transições políticas e transações comerciais. E cada vez menos, o homem via-se (ou acreditava-se), imerso em estruturas que lhe tolhessem a liberdade individual e de seu pensamento. Uma das últimas conquistas aparentes de nossa sociedade foi o direito de falar, a liberdade de expressão. E o homem livre, que agora pode, ou acredita poder, se manifestar das mais inimagináveis maneiras possíveis com seus semelhantes, ainda é um homem preso. Um homem que se esforça em crer que a liberdade de seu pensamento manifestado, é a expressão máxima de sua liberdade. O ponto mais alto que poderia chegar.

A liberdade concedida historicamente não parecia, esse tempo todo, que nos levaria enfim à felicidade mútua, ao convívio pacífico, e à evolução da humanidade? Seria o mais lógico, mas por algum motivo, isso não aconteceu. No caminho, no impulso pela vontade de ser livre, algo insinua que demos algum passo trôpego. Caminhamos sim, evoluímos sim, conquistamos sim. Mas descobrimos que não fomos, nem somos completamente felizes. Nem livres.

O homem levanta do divã do psicólogo e vai para casa. Convence a si próprio que é livre. Busca as respostas em seu pensamento: foi ensinado na escola e desde pequeno a encontrar todas as respostas nele, mas não as encontra. Seu pensamento, agora historicamente livre, lhe parece até ter vida própria: corre de lá pra cá, vai e volta, decide, depois volta atrás, ouve um conselho ou outro, se contradiz, segue sozinho por todas as direções. Mas não encontra um ponto de descanso.

Confuso, percebe que suas próprias leis, agora substituíam tranquilamente as leis que tanto oprimiam o homem ao longo dos séculos... Solidão.

Não encontrava agora sequer inimigos que pudessem ocupar seu espaço de luta.

Então, o homem sozinho, sai de seu centro historicamente cunhado, um universo mental dito livre, e volta a olhar timidamente para o Universo ao seu redor. Vislumbra assustado que não está sozinho. Que não tem em si todas as respostas. Enxerga o caminho de sua solidão cuidadosamente traçado, à parte de tudo que existe além dos limites de seu pensamento. A grandeza lhe assusta.

Tateia dolorosamente pelos dogmas de seu próprio pensamento e dos pensamentos dos outros, definitivamente, não era livre. Havia algo mais em seu interior, pedindo para ser solto e liberto. E o homem sabia, mesmo sem querer, que era dali, daquele lugar que ele não conhecia e que era maior que sua mente, que também vinha o estranho e comum anseio de felicidade.

Que havia dentro dele, vivo e pulsante, que não se esvairia em uma lápide após oitenta e poucos anos de vida? Que era ele em si, que não só cabeça, território livre para abrigar todas as filosofias existentes? Que era ele que não só um corpo, livre em movimento e expressão?

O desejo de liberdade atordoava, cutucava alto e baixo no fundo de sua pouca conhecida completude, rasgava o coro uníssono das multidões, discordava, chorava, se maravilhava, querendo ir além. Porque ainda não era livre?

Se a ausência de liberdade oprime em primeiro lugar aquilo que chamamos de individualidade e sua manifestação, não seria importante perguntar, afinal, o que era essa individualidade? Do que ela se constitui, de onde veio, para onde vai?

O homem silencia. É o primeiro desatar de nós de sua visão e compreensão. Nunca ousara ir além dali. Nunca ousara se perguntar. Nunca notara que o primeiro grilhão, fora fechado com chave própria, forjada nos olhares de seu tempo, cansados e cansativos, desiludidos e imperceptivelmente limitados. Olhos sem brilho e sorrateiramente deprimidos. Brilho nos olhos não é coisa se engane, ou ele existe, ou não existe. Por hora, era apenas o início da descoberta... 

Imagem livre - www.morguefile.com

sábado, 21 de janeiro de 2012

True love is like a dessert

Denyer Barok* é um chef mais conhecido por seus aforismos sobre a vida cotidiana, do que pelas peripécias na cozinha. Deixou as panelas em 93, quando saiu da França (naquela época recém celebrado pelo restaurante Mimettre) para dar lugar a sua paixão verdadeira: dar conselhos e fazer rosquinhas.

No começo não foi fácil arranjar um lugar que lhe coubesse no mundo, não há muito espaço para trovadores sentimentais no reino das panelas, que dissesse fora dele. Veio então para São Paulo e abandonou os elegantes pratos de passarela do Mimettre para fazer rosquinhas– agora, as mais charmosas da cidade- e que ainda vêm com um diferencial: pequenos textos escritos à mão em suas caixinhas, que servem de alento para clientes sedentos de alma e açúcar.

Em uma delas, simples, com apenas 12 biscoitos cuidadosamente empilhados, somente uma frase ocupava o espaço: “True love is like a dessert.” (O amor verdadeiro é como uma sobremesa).

Intrigada fui perguntar ao próprio Denyer o que isso significava. Para minha sorte, ele não gosta muito do estrelato e recebe qualquer um em sua pequena cafeteria nas imediações da cidade. Para a sorte dele, eu gostava de fazer perguntas, o que me rendeu um episódio curioso ao lado do grande chef de rosquinhas e conselhos.

-“Por que o amor verdadeiro é como uma sobremesa Denyer?” Perguntei a ele.

-“Muito simples” respondeu.

"Depois de passar alguns anos em grande restaurantes, começando pelo cargo de auxiliar do sub-assistente de alguma tarefa, e terminando como o Chef pouco amistoso que decidirá o que será servido na semana de acordo com seu humor, você aprende algumas coisas. E muito do que aprendi está relacionado ao amor, ao amor verdadeiro.”

 -“Como assim Denyer?” perguntei.

-“Veja só, eu era capaz de fazer pratos elaborados, elegantes, ou só cozinhar o que os outros gostavam, mas nada disso era amor verdadeiro, nada disso tocava o meu coração.

Amor verdadeiro são como rosquinhas, iguais às que faço hoje! E ninguém me deixava fazer rosquinhas em minha saga pelas cozinhas estreladas. Tentava escapar entre um caldo e um risoto para fazer algumas simples rosquinhas para o café da tarde, mas não havia espaço para elas em minha rotina.”

 Neste momento ele faz uma pausa, se emociona, e continua:

“No máximo conseguia começar a bater os ingredientes, e logo vinham os problemas para resolver, você sabe, a cozinha é um ambiente difícil, é preciso estar preparado. Teve uma época que consegui que houvesse rosquinhas no restaurante, mas como eram muito simples de se fazer, um encarregado podia prepará-las, enquanto eu tinha que dar atenção aos pratos mais elaborados. Isso me enchia de tristeza.

E quando digo que rosquinhas são como o amor verdadeiro, como o casamento, le mariage! Digo isso porque elas nunca falham. Podem não ser um doce apetitoso e colorido, nem aquele prato exótico que você gostaria de experimentar e que há anos você se pergunta por que nunca fez. Mas as cinco ou seis da tarde, tudo o que você vai precisar são rosquinhas amigas. Singelas rosquinhas e uma xícara de chá, que pode até estar frio, mas se as rosquinhas forem como as minhas, elas salvarão sua tarde.

Rosquinhas são a medida certa de sabor, nem mais, nem menos. Não há quem não goste delas. São como um abraço carinhoso e conhecido, um sorriso sincero no fim do dia, um suspiro compartilhado depois de algo que deu errado. Com as rosquinhas, sempre fui feliz, mas demorou para que eu assumisse esta paixão completamente.” – Confessou.

Ninguém quer admitir que passou por uma escalada rumo à fama e deixou tudo para trás para se dedicar às rosquinhas, que aliás, nem são uma sobremesa, apenas um tímido item de pâtisserie. Chamo de sobremesa porque para mim elas valem muito mais do que qualquer crème brûlée de confeitaria, entende?

Mas como tudo na vida tem seu tempo, demorei um pouco para perceber que uma vocação a gente só consegue esconder até certo ponto, e quando percebi que aquilo era amor, cheguei ao meu limite.”

-E como foi isso?

-“É preciso ter amor pelo que se faz, simplesmente porque esse é o ingrediente mágico que faz tudo funcionar, na cozinha, nos relacionamentos, na barbearia. E com as rosquinhas era assim. Muitas vezes a gente deixa o amor escapar preocupado com outras coisas que gravitam em torno do dia-dia, as contas, o cliente insatisfeito, aquela moça que tinha alergia a camarões e não sabia, minha nossa, nunca me esquecerei daquele dia! Enfim tudo isso deixa o amor passar despercebido se você não estiver disposto a vê-lo, compreende?

E ai no final, você se vê rodeado de conquistas, quadros nas paredes, recomendações disputando espaço na edição de sábado nas revistas, e nada disso lhe satisfaz, o amor mesmo, se perdeu. Certo dia me vi sozinho em minha cozinha e elas, somente elas (as rosquinhas) me deram ânimo para juntar um punhado de farinha e preparar algo. É nessas horas em que você se reconhece meu amigo. E quando as vi, douradas, saindo do forno com seu perfume leve e discreto, sabia que estava mais perto das coisas que me faziam sentir eu mesmo. Não que as rosquinhas sejam minha razão existencial, longe disso, mas estar ali, fazendo o que gosto, com gratidão e felicidade, é o que me aproxima de minha razão existencial, do sentido de minha vida.”

-“Você fala em amor verdadeiro, existe então um amor que não é verdadeiro, um falso amor Denyer?”

-“É ai que você chegou no ponto certo, minha cara. Não existe amor falso, ou é amor verdadeiro ou não é amor. O problema é que as pessoas hoje confundem uma porção de coisas com amor, que não são amor de jeito nenhum.

Devo lhe confessar que nós humanos somos péssimos em matéria de amor. E esse amor, que temos pelas coisas, pelas causas, por uma pessoa, por nosso trabalho, é ainda apenas um pequeno amor. Ele na verdade é mínimo, perto do Amor maior, que está em todas as coisas, em nossa existência... O amor pequeno, mesmo quando real, verdadeiro, amor com todas as letras, é só uma pequena mostra, para nós palpável, de um Amor maior, sinônimo de toda Vida. Existir é maravilhoso, você já pensou sobre isso?"

-“O senhor lê filosofia?” Perguntei curiosa.

-“De maneira alguma. A filosofia, se você quiser saber, pode ser extraída de tudo que se queira conhecer verdadeiramente e com profundidade, não é preciso ir à Sorbonne para desvelar a consciência humana, muito pelo contrário, aliás. A filosofia está em tudo minha jovem, é por isso que alguém pode acessá-la até mesmo através de uma fornada de rosquinhas...”


Denyer Barok* é um personagem fictício, assim como este texto, apenas um exercício literário. 


Imagem livre - www.morguefile.com

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A economia do botijão de gás

Já era de noite e eu estava na rua quando ela me parou. Tinha pouco mais que a minha idade, talvez uns três ou quatro anos a mais. Usava roupas em bom estado e tinha uma criança ao colo. Era bonita. Estivera andando o dia todo. E eu, naquele dia de sol forte, das poucas caminhadas que tinha dado, já sentia a cabeça doer. A moça me contou que estava procurando emprego de faxineira já fazia dias, e que estava morando na capital porque havia fugido do marido com suas crianças. Pude perceber a vergonha em seus olhos. Ela se desculpou por incomodar, mas disse que precisava urgentemente de um trabalho, qualquer que fosse, para comprar um botijão de gás e alimentar seus filhos no acampamento sem terra em que morava.

Expliquei à moça que não poderia lhe contratar e que não sabia onde pudesse conseguir um trabalho, mas ofereci-lhe um pouco de dinheiro. Foi quando a moça, tomada por um sentimento de tristeza e resignação disse: “Não quero dinheiro moça.”. Ela precisava de um emprego, e sabia disso. Não queria pedir. Sabia também que o dinheiro dado no dia, não valeria tanto quanto a garantia de um trabalho. Seu bem mais caro e de maior urgência era o botijão de gás. R$ 45,00 – o preço de um dia de faxina segundo ela, e muito mal pago, por sinal. Disse-lhe para aceitar o dinheiro, se pudesse ajudar a comprar comida para a criança. Ela aceitou, mas com peso nos olhos, dinheiro não valia tanto quanto trabalho.

A história é semelhante a muitas outras, para quem vive em São Paulo, metrópole cujos bolsões de pobreza e histórias inacreditáveis, não são mais apenas bolsões - são a própria face escondida por trás de nosso modelo de progresso, escrita e estampada nas ruas da cidade. Talvez a história não choque, muitos de nós estão distantes da realidade de fugir às pressas de casa, deixando para trás o pai dos seus filhos e sumindo no mundo. Mas todos nós sabemos quanta razão tinha a moça em preferir um trabalho do que o dinheiro dado. Dinheiro que já havia recebido de outras pessoas em sua caminhada em busca de emprego. Essa sutil diferença entre ganhar dinheiro e receber dinheiro, determinaria para a moça, dois caminhos diferentes de vida a seguir. Provavelmente para seus filhos também.

Mais do que uma faceta de nossa sociedade, essa moça é um retrato de uma complexa situação socioeconômica brasileira, na qual, em escala ampliada, há uma parcela da população em boa situação social disposta a dar dinheiro, mas incapaz de oferecer um trabalho. Pessoas cuja renda capacita ao assistencialismo, mas não são capazes de replicar essa riqueza, provendo trabalho. Há muito mais domésticas oferecendo seus serviços, do que vagas para esse tipo de trabalho em uma metrópole como São Paulo. E é vergonhoso perceber como nossa organização social traz contrariedades tão grandes como essa: é possível doar para muitas  pessoas necessitadas, pois o excedente monetário viabiliza isso, mas não é possível absorver tantas pessoas para dentro de uma dinâmica de geração de renda e riqueza. Isso ainda vai mais além, pois é uma das profundas raízes do que chamamos pobreza endêmica em uma organização social.

Passamos então a repensar uma das muitas causas da pobreza, não como ausência de riqueza monetária produzida por um local (isso não é novidade), nem como disparidade de distribuição desta riqueza, de forma direta, mas como um desequilíbrio na organização do sistema de trabalho, se pensado como um ecossistema único e integrado.

Ainda na sociedade brasileira, confundimos dinheiro com riqueza, duas coisas muitas vezes integradas, mas diferentes. Em termos simples, riqueza é ter o que comer, ter saúde e viver bem. Dinheiro são notas que você guarda no banco, de valor simbólico e instável. Pois bem, a sociedade brasileira produz dinheiro, sua nova classe média e a classe alta possui mais dinheiro do que nunca possuiu, e mesmo assim a riqueza diminui. Enquanto isso, acostumado com uma noção parcial de crescimento econômico e riqueza, o Brasil caminha. Também caminha aquela moça, vendo sua riqueza no tão sonhado botijão de gás, muito mais do que no dinheiro assistencial que toda uma classe é capaz de lhe oferecer.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ebulição


Existe um momento na vida em que decidimos ser felizes. Um só não, vários. Isso acontece algumas vezes, e geralmente vem depois de um mais ou menos longo período de revisão, ou de um baque, uma queda profunda, certeira, dolorosa e necessária.

A tal da revisão da vida pode acontecer de várias maneiras. Às vezes ela vem quase que inconsciente, rodeando pelas bordas, sussurrando alguma coisinha aqui, outra ali, até dar o grito. Às vezes também não é um grito, mas uma conversa franca com nós mesmos, em que o tempo parece parar e sentamos para conversar conosco, a sós, observando o mundo ao nosso redor e nossa situação nele.

Um amigo querido me descreveu isso de maneira bem simples ao longo das fases da vida. Se uma primeira pergunta que fazemos quando atingimos a maioridade é: “quem eu quero ser?”, o passo seguinte dali a alguns anos, inevitavelmente terá o tom de outra pergunta: “estou sendo o que quero ser?”, e mais tarde talvez de outra, quem sabe derradeira: “eu realmente quero ser o que estou sendo, e que decidi ser?”.

Fases de desenvolvimento à parte, talvez essas perguntas nos revisitem periodicamente com mais frequência do que imaginemos. E no “decidir ser”, alvo de uma meta, vetor de uma força de vontade que constrói a vida, queiramos ou não, muitas coisas pequenas, diárias, rotineiras, esmiúçam um caminho. Falo de vontades profundas e verdadeiras. Não das vontades passageiras e frívolas, que voam com o vento, oscilam com os mercados e mudam junto com a cor da estação. O tipo e a qualidade dessas vontades são o que geralmente somos chamados a avaliar. Pesar e olhar novamente toda vez que aquele momento, a sós, nos chama à salinha da consciência, depois de uma doença, de um revés, de um ou vários sustos, ou mesmo de uma ebulição.

Ebulição? Sim... a tênue consciência de que mesmo na calmaria da vida exterior, aquela que aparece ao outros, algo lentamente fervilha e vem à tona.

Os ursos hibernam, as plantas também. Um recolher de forças e nutrição que prepara algo. Nos ursos, o batimento cardíaco diminui, as funções vitais mudam de ritmo e ele todo se faz processo de um preparo. Nas plantas, as forças vitais também passam por transformações e o próprio período de poda é feito geralmente nessa fase de latência, para que depois, a planta cresça e brote direcionando toda sua  energia na formação de novas folhas e galhos. 

Como disse Cecília Meireles "Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.". Também temos nossos períodos de podas, hibernação, latência e ebulição. Coisas diferentes mas que em algum momento tocam, com suavidade ou violência aquele que passa por uma transformação. Não sei se “violência” é a palavra mais adequada, no sentido de violar algo, mas mais no sentido de atravessar nossas camadas e balançar nosso interior. Talvez a violência também dependa em muito de quanta resistência opomos às transformações.

Pergunte a alguém, pergunte a você mesmo: no começo, meio ou fim desses processos de transformação e revisão, as pessoas, quer ou não, esbarram na felicidade e também na realidade espiritual, ou espiritualidade. Espiritualidade, não como expressão religiosa, mas como reconhecimento de um Eu espiritual vivo em nosso interior, que caminha em um Universo maravilhoso e abundante. O ser vivo que não se vai com o corpo, matéria sujeita à decomposição na Terra.

Fala-se muito em sentido da vida, mas eu prefiro a palavra propósito. Enquanto que o sentido é tudo aquilo o que nos rodeia e que vai para além do visível, o propósito pode-se dizer que é o que vou fazer com tudo isso. Como vou me posicionar e o que ativamente farei em um Universo tão maravilhoso.

Não é difícil ver como essas pessoas (muitas vezes por algum motivo doloroso) pararam tudo o que estavam fazendo para pensar, sentir e intuir com urgência o que é a felicidade, o propósito do Eu e a realidade interior, espiritual; e como essas questões recorrentemente nos chamam de forma audível em algum momento da vida. Momentos de desfragmentação, observação e reorientação. Momentos maravilhosos, em que algo vem à tona e nos chama para o encontro da felicidade, como se ela fosse não somente uma contingência, como creem os infelizes, mas uma necessidade inerente à própria condição de vida na qual estamos imersos e da qual somos, em pequena parte, sujeitos, e em grande parte, objeto - uma compreensão que passa, via de regra, pela humildade, mas que já é assunto para outro texto...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Amor de desencontro

Foi só um arranhão. Um arranhãozinho, indo do capô à lanterna do carro, coisa pequena. Então tudo bem, ela pagava e ficava tudo certo. Ele perguntou seu nome, mas ela não respondeu.

-Só um minuto, vou anotar a placa do seu carro primeiro.

Ih, aposto que essa deve bater o carro todo mês – ele pensou.

-Porque você tinha que me fechar daquele jeito? Eu achei que você ia parar.

-Porque sempre a gente tem que parar? Os outros nunca param né?

-Eu achei que você ia parar moça.

-É eu também.

-Você tem seguro?

-Não.

-Eu também não. E agora como é que faz? Quem vai pagar?

-Seria bom se você pudesse fazer a gentileza de assumir a culpa - disse ela.

-Mas não fui eu quem bati em você, foi você quem veio correndo, lá de trás, ouvindo rádio, toda desligada, eu vi.

-Voce viu?

-Ví.

-Como se eu estava lá atrás?

-Eu ví ué, olhei pelo retrovisor e vi você, correndo que nem uma louca.

-Então quer dizer que você me viu e nem deu o trabalho de desacelerar... Pelo contrário, correu mais ainda.

-É por que queria chegar primeiro. Estava atrasado. Aliás, estava não, estou. Agora já perdi a hora.

-Eu também.

-Acho melhor agente sair daqui do meio da rua, lá atrás já está virando um caos.

-E você não vai pagar?

-Você tem telefone?

-Pra que?

-Não, sei. Não é isso que as pessoas fazem quando batem o carro, trocam telefones?

-Vamos estacionar ali do lado

-Ok.

...

-Você nunca bateu o carro? - ela perguntou.

-Não, estava novinho, comprei faz pouco tempo.

-Puxa...

-E você, bate o carro, assim... Com frequência?

-Por que? Parece?

-Só estou perguntando...

-Já bati sim...Mas uma vez só, e pior, foi nessa mesma rua...

-Sério?

-Sério.

-Que coincidência...

-Nem me fale...

-Então quer dizer que você bate sempre, quer dizer, vem sempre aqui?

-É o caminho do trabalho.

-É o meu também.

-E todo mundo sempre corre aqui nessa ruazinha, impressionante. Parece que todo mundo passa por aqui e lembra que tá atrasado.

-É isso também acontece comigo.

- Olha... Me desculpa, eu não queria ter feito isso.

-Na verdade, eu que não devia ter corrido tanto, vi você vindo lá de trás, mas queria chegar primeiro...

-Mas era sua vez de passar.

-Mas você estava com mais pressa do que eu...

-Na verdade, eu nem estava com tanta pressa assim, mas todo mundo correndo, dá até mais pressa, não sei...

-É que essas coisas estão...tipo no ar sabe? Um pega e passa pro outro..sem saber

-Você também acredita nessas coisas?

-Acredito...

-Na verdade, eu quase nunca corro, eu nem sei porque estava correndo...

-Vai ver você tinha que bater o carro mesmo e eu também.

-Será? Não sei... As pessoas não acreditam nisso por ai...

- Ah, não sei, às vezes eu acredito...

- E porque você não fez seguro?

-Eu achei que nunca ia bater o carro. Não, não foi isso, eu achei que nunca ia bater o carro a ponto de precisar do seguro. E você, por que não fez seguro?

-Não sei, descuido. Acho melhor fazer daqui pra frente, já é a segunda vez então...

-Eu tenho um primo que é corretor de seguros sabe... Gente boa ele.

-E porque você não fez seu seguro com ele?

-Qual é seu nome?

-Márcia.

-Olha Márcia, eu não gosto de seguradoras, seguros, enfim, essas coisas só me deixam mais aflito ainda.

-Por quê?

-Porque você está literalmente investindo em uma coisa que quer evitar sabe?

-Mas não é bom prevenir?

-É bom sim, você tem razão.

-Acho que você tem que superar isso sabe?

-Você é psicóloga?

-Sou.

-Ah entendi.

-Entendeu o que? É sério, você tem que fazer um seguro mesmo, olha onde você vive. É loucura não ter seguro hoje em dia.

-É mas você também podia ter pensado nisso do seguro....ai quem sabe, evitaríamos alguns problemas...

-É mas eu não tenho.

-Você quer o telefone do meu primo?

-Quem, o do seguro? Ah pode passar... Nossa estou super atrasada, já perdi meu compromisso. Qual é o seu nome mesmo?

-Fábio. E o seu é Márcia.

-Isso.

-Você ia pra onde mesmo?

-Vila Mariana. Eu trabalho lá.

-Perto de onde?

-Da cinemateca, conhece?

-Sei, sei sim. Eu fui lá uma vez já... Ver um filme... Não esqueço esse dia...

-Que filme?

-Não lembro o nome, mas era sobre um casal...

-Um casal...?

-É um casal desses bem comuns sabe, que fica discutindo a relação o filme inteiro... Muito, muito chato mesmo.

-Mas porque você foi ver então, se era tão chato?

-Eu não sei, achei que minha namorada... Ex-namorada! ia gostar de ver o filme, ai fomos lá ver... Nossa era muito chato mesmo, as músicas davam até sono... Eram uns boleros sofridos... Que filme triste sabe... E o casal discutia e discutia e não saia do lugar. Parecia até que eles gostavam de ficar conversando e discutindo sem parar... Uma loucura...

-Você pelo menos prestou atenção na música.

-É que eu sou músico...

-Legal...

-Agente tem uma banda...

-Bacana

-Eu meu primo e uns amigos nossos...

-O primo do seguro?

-Não outro primo... Família grande, italiana...

-Meu pai também é descendente de italiano... Imigrante

-Você, eu e metade da cidade...

-Uma vez eu fui num museu... Museu do Imigrante, lá na Mooca, você conhece?

- Não, nunca ouvi falar.

-É bem legal lá mesmo... Você pode procurar os registros da sua família, sobrenome e tal... Ver quem veio de navio com quem, de onde vinha, pra onde ia...

-Meus bisavós se conheceram num navio... Essa história é engraçada, eles viajaram seis ou sete meses, e no último dia de viagem se conheceram, só no último dia... Mais um pouco eles tinham ficado sem se conhecer...

-Será?

-É, na verdade eu acho que não... É como eu disse, acho que tem coisas que tem que acontecer mesmo, vai entender... Se quiser depois te conto a história melhor, eu não lembro bem... Mas eles foram bem felizes juntos...pelo menos eles se davam bem...

-É um dia você me conta. Vou ficar feliz em saber a história dos seus bisavós...

-Sério?

-É sim... É que tem a ver com o tema da minha pós da psicologia...

-Sobre o que é a sua pós?

-Tem um nome complicado, mas é sobre a função da memória na formação da personalidade...

-Poxa bacana... Coisa séria hein..

-É... Eu queria fazer já faz muito tempo... Esses dias estava pesquisando sobre a nossa capacidade de lembrar das mesmas coisas do passado, de um jeito diferente, e mudar nossa percepção sobre elas no presente... Quase como acionar um botão... Que podemos apertar a qualquer momento...

-Tipo a lembrança dessa batida daqui para frente...?

-É tipo a lembrança dessa batida daqui pra frente...

-Parece então que agente apertou o botão ao mesmo tempo...

-É...Olha, eu nem sei por que impliquei tanto com esse arranhãozinho.

-Um arranhãozinho com um leve amassado no final...

-E um pedacinho do para-choque caído.

-Não é tão ruim assim.

-Não, não é.

-E agora eu vou olhar pro meu carro amassado, e vou lembrar de você.

-Eu acho que ainda vou lembrar da batida também...meu carro arranhou mais que o seu.

-É verdade, você foi mais prejudicada do que eu.

-Pois é, está desigual.

-Então eu vou ser obrigado a te pagar um café para compensar.

-Mas um café não vai compensar esse dano...

-Não tem problema, eu pago vários.

-De uma só vez?

-Não, posso ir parcelando os cafés se você quiser...

-Em quantas vezes?

-Umas quatro ou cinco quem sabe... Depende de quantos cafés você achar que vale essa batida...

-Acho que vale alguns cafés, talvez uma ida à oficina...

-Que bom... Agente compensa o dano.

-É agente compensa... Aos poucos

-É aos poucos.

-Você vai por ali?

-Eu vou para o outro lado.

-A essa hora não faz mais sentido ir por ali, vou voltar pra casa.
Me desculpe, atrapalhei seu dia.

-Que isso. Foi só um desvio de rota. Acontece.

-Mas que besteira, eu nunca devia ter batido em você, devia ter desacelerado.

-Eu também, e devia ter desviado.

-Sim e você também.

-Mas aí teria sido mais um desencontro.

-Sim, teria...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sweet manipulation

Já não é de hoje que o mesmo assunto bate em minha porta, seja pela boca de um amigo ou amiga, seja pelas palavras de algum teórico, distante no tempo e espaço, próximo em pensamento. Isso porque observar o modus operandi da mídia é uma tarefa que requer anos de estudo, um doutorado e uma tese, ou apenas uma sentada no sofá diante da televisão, com olhos mais abertos e uma mente menos amortecida. Sem desmerecer nenhum dos dois, vamos ao caso.

Não é de hoje que a abordagem infantilizada, por meio da publicidade, da mídia e da política, varre o imaginário popular com uma desenvoltura aterradora.

Mas o que significa dialogar constantemente com um discurso que nos trata como se tivéssemos pouca maturidade? Que efeito psicológico tem a voz que fala conosco através da comunicação como se fossemos carente de entendimento? Que não se aprofunda e permanece sempre na superfície dos lugares comuns e dos consensos previamente aceitos? O discurso é uma arma poderosíssima, capaz de conduzir facilmente pela mão os menos atentos.

Se eu falo com você como se tivesse 10 anos de idade, com pouquíssima ousadia crítica e reforçando silenciosamente que “você não sabe nada, ainda tem muito para aprender”; Se eu falo com você com a tonalidade da voz paternal da experiência, aquela que sabe o que é melhor para “você e sua família”, que tipo de resposta estou esperando de você? E porque será que eu falo sempre de “você e da sua família”? Seja pra vender margarina ou divulgar meu partido, quem foi que abriu a porta da sua casa e reservou um lugar no seu sofá para que eu conheça sua família assim tão bem?

Se uma pessoa fala com você assim, você com certeza vai achar um pouco estranho. Mas se muitas vozes da comunicação falam com você assim o tempo todo, a tendência, como quase em tudo, é achar que a maioria tem razão.

Mas pouco paramos para prestar atenção nessas vozes que dialogam conosco o dia todo. Pouco paramos para ouvir o que elas falam, o que elas tem a dizer, e o que sobra da intenção fundamental revestida de frases de efeito.

Pouco notamos que entre uma trama de consensos altamente digestíveis, facilmente se aderem pedaços de ideias, que despercebidas nesse emaranhado, depois se encontram e se combinam em nosso interior, causando má digestão. E depois nos vemos desconsolados, com a cara vazia e o estômago enrolado, perguntando, “que será que me fez mal?”. Enquanto aquele produto inútil, aquelas memórias do filme ou da novela, aquele político, aquela lei aprovada, aquela emoção ou vontade, permanecem entalados, atravessados em nós, sem conseguir sair.

A voz que fala conosco através da comunicação unidirecional (aquela que não admite resposta), sabe exatamente com quem está falando, quantos anos temos, onde moramos, e se preferimos café ou leite de manhã. Ela que nos diz que emoções teremos ao comprar determinado produto. Ela ilustra nosso desejo de liberdade como sendo andar de 4x4 na lama, com a bravura épica de um batalhão romano, triunfo da condição humana sobre a natureza. Mas no fundo no fundo, tudo que queríamos era a liberdade de sair do mar intransponível de trânsito que atravessa nossa cidade todo fim de tarde, de andar livremente e sem medo pelas ruas... Nossa liberdade não era subir o Aconcágua de jipe depois de um dia cansativo de trabalho.

É ela quem diz que temos direito à liberdade de fumar um cigarro. E depois nos conta que todo mundo tem direito à saúde e à felicidade, e nos vende um plano de saúde. Ela que ensina didaticamente o desafeto mútuo e escancarado diário na maioria das novelas, e depois nos vende pequenas porções de afeto familiar, a cada intervalo, em um pacotinho de Sazon.

Não quero dizer que essa voz- que são várias vozes- como a voz publicitária por exemplo, seja uma espécie de desserviço social, que tudo que faz é corromper o homem. Não. Essa voz também tem sua razão de ser. Ela por si só (o ato do anúncio público de algo ou alguma coisa – publicidade) não corrompe pelo que é, mas sim, pelo modo como é feita.

Não é o sistema que corrompe o homem. É o homem que corrompe o próprio homem, através do sistema. Através de um modo de fazer, de dizer, de anunciar. E continua sendo o homem que dá a tonalidade a todas essas vozes.

Vozes que falam ininterruptamente conosco, sem resposta, e que sabem mais de nós do que nós mesmos. Que sabemos delas? De onde elas vêm? Com quem temos conversado ultimamente esse tempo todo?