sábado, 20 de abril de 2013

A cultura das coisas

"Os processos, a engenharia e a técnica não são o problema. O problema são as pessoas, que se unem para falar sobre coisas. Se deitam pensando em coisas. Se refastelam na falsa sensação de êxito de uma sociedade cujos processos materiais estão em pleno funcionamento. O homem se afastou do homem para buscar coisas, para ler sobre coisas, para trabalhar pelas coisas, para amar através das coisas".


Processos, eficiência, capacidade, inovação. Atributos tecnológicos passam às relações humanas com a mesma facilidade que Bauman anunciara sobre as relações de consumo e o território das relações pessoais –parco limite. 

Os olhos crescem aos gadgets, traquitanas, apps. É mais fácil falar sobre configurações do que sobre sentimentos. As pessoas se unem, juntas se divertem, para falar sobre configurações.

O tempo que desponta faz da técnica a expressão de uma cultura. Mas a técnica é tão antiga quanto aquele pessimismo da tecnologia-robótica e do homem virtualizado, que não se realizou. Não se realizou como imaginávamos, pois nem nisso somos bons –imaginação. O homem virtualizado não é filosófico, não existe em um espaço de bytes matemáticos de estranhas convulsões acadêmicas. Ele é um nó, um homem pasmo, um homem bobo que se diverte e rí das engrenagens que o rodeiam mas esquece, quase que confortavelmente de si mesmo. Sua preocupação está nas coisas que podem atrair sua atenção, um novo método, uma nova invenção. Um jeito novo de empilhar garrafas e transitar dados, tudo que não é vivo lhe é caro e próximo.

Os processos, a engenharia e a técnica fizeram uma civilização, são a mimésis sempre imperfeita de uma natureza simples. Mas os processos, a engenharia e a técnica não são o problema. O problema são as pessoas, que se unem para falar sobre coisas. Se deitam pensando em coisas. Se refastelam na falsa sensação de êxito de uma sociedade cujos processos materiais estão em pleno funcionamento. O homem se afastou do homem para buscar coisas, para ler sobre coisas, para trabalhar pelas coisas, para amar através das coisas que o ser amado ostenta e representa. A excitação sobre o novo aparato é como um sonrisal cadente, que espuma e brinda a novidade de tudo aquilo que pode ser construído, dominado, manipulado. Das sensações vivas, das impressões profundas, pouco-se sabe. A mídia e as conversas passam pelas coisas com incrível facilidade e nos enamoramos delas. Se as possuímos, triunfo.

Uma vez o homem se afastou da religião corrompida para encontrar o sentido em si mesmo, nas humanidades, no esclarecimento, na ideia iluminada em tempo de dogma-breu. Mas o homem retornado ao homem não pode evitar a barbárie. Certo é que o homem da religião institucionalizada também promovia a barbárie.

Pergunte ao homem sobre coisas, ela é sua nova crença, esculpida no panteão da participação no mercado. Participar do mercado é participar da própria vida, centro da estrutura de significado contemporâneo, valor maior que orienta o modo como os jornalistas e as pessoa ditas interessantes falam. Sua crença não é mais capaz de esconder nas palavras. 

Agora o homem se volta para as coisas, sua ordem é das empresas, dos produtos, sua linha guia é produzir algo para vender e se manter vivo. Só que a vida muitas vezes se esvai nestes entre-momentos de compra, venda e produção acelerada. Produção sem vontade nem coração. Para constar, a idade e a cultura das coisas também não pode evitar a barbárie.
Parece que o sentido, a essência do cotidiano se perdeu em um momento específico ao longo da história. Para não adentrar neste território dizemos que a barbárie e a falta de sentido são a essência do homem. Mas o homem lobo do homem é uma grande desculpa que nos contaram, para justificar todos os nossos erros. Afinal, não há nada a melhorar em homem que é lobo do homem, por natureza corrompido. 

Como a sentença de uma igreja secular, as epístolas intelectuais guiam toda uma sociedade cada vez mais para fora de si mesma e em direção às luzes das coisas construídas e perecíveis.

Voltemos ao instante em que se deu a ruptura.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O futuro dos filhos dos outros

"Enquanto a sustentabilidade for tratada como o supérfluo e nossas próprias palavras não refletirem essa consciência viva e real, continuaremos a pensar nela somente como algo importante para o futuro de nossos filhos, enquanto de soslaio, um leão amazônico nos espreita, mais perto do que nunca."

Comunicar para a sustentabilidade não é uma tarefa fácil.

Enquanto alguns não aguentam mais ouvir a palavra sustentabilidade, que prolifera em todos os lugares, produtos e discursos, outros ainda ficam receosos diante do conceito, quando não o ignoram. Uma outra boa parte, não raro, relaciona sem muito jeito sustentabilidade à ecologia, trazendo ao imaginário imagens como árvores, araras, um leão rugindo ameaçadoramente e a floresta Amazônica. Um leão amazônico.

O problema esta no fato de que os leões estão muito longe e nós, e a Amazônia ainda é, para muitos um Eldorado de lendas, estilizado como um souvenir.

Na visão mais comum do conceito de sustentabilidade para o grande público, as plantas do jardim, a Amazônia, a vida selvagem e os leões, parecem estar mais próximos da palavra sustentabilidade do que as enchentes nas ruas, a poluição dos automóveis, o lixo doméstico e as relações de trabalho. Ninguém vê sustentabilidade nas filas dos hospitais, nos morros das favelas, nos pássaros vendidos em gaiolas. Ninguém vê nas calçadas cimentadas e impermeáveis, no mandato dos governantes, no escapamento do carro, nas notícias do rádio que anunciam com alarme que o Brasil não está crescendo quanto deveria. Poucos vêem a sustentabilidade ali, exatamente onde ela está, e mais próxima impossível.

Diante da tarefa de comunicar para a sustentabilidade, o pobre leão amazônico e as imagens e conceitos populares que temos do conceito de sustentabilidade não dão conta do recado, principalmente em tempos de crise socioambiental.

Não culpo ninguém, a sustentabilidade é mesmo uma palavra recente, foi citada pela primeira vez no século dezoito, mas passou a ser usada da forma como é hoje só no ano em que eu nasci. A sustentabilidade tem a idade do universo, mas a palavra tem praticamente a minha idade. O problema é que ela está muito mais próxima de mim e de todos, do que imaginamos. Ela anda na nossa cola, qualquer dia olharemos para trás e levaremos um susto: ela sempre esteve lá o tempo todo, e seu rastro é o nosso também.

É por isso que temos que comunicar para a sustentabilidade, e fazer isso melhor do que temos feito até agora. O imaginário popular se apropria da ideia socioambiental ainda com muita distância, sem saber que a sustentabilidade está para as pessoas e para natureza em igual medida. Canso de ver vozes de opinião repetindo que estão pensando nas pessoas, e depois na sustentabilidade, como se ela fosse perfumaria, jardinagem, item supérfluo na cultura organizacional e urbana, por exemplo. Nas ideias, no discurso comum, a sustentabilidade ainda está relegada aos quintais e parques, ela não é urgente, e sim acessório. E é justamente para essas vozes (e para os que as ouvem) que temos que comunicar em dobro sobre a sustentabilidade, pois divulgam uma ideia dicotômica e errada, que reforça a separação entre homem e natureza fundida no antigo ideário do progresso megalomaníaco e faminto.

É difícil demonstrar como a sustentabilidade está junto de nós, por isso precisamos trazê-la mais para perto. Extrapolar as áreas verdes e colocar ela em nossa mesa, em nosso consumo. Temos que dividir nossa cultura com ela, nosso desejos e angústias mais profundas, pois a sustentabilidade está lá também, nas dobras de nosso comportamento.

Mas será que estamos fazendo isso do jeito certo?

Em uma época de tantas contradições, duvido sempre dos discursos demasiado fáceis, mascados como chiclete, gastos, usados e com pouco poder de transformação. As palavras tem que movimentar, mover algo. E se necessário, causar o desconforto característico de uma colisão, quando se deparam com um ambiente por demais rígido e paralisado. Nem que seja o desconforto de um grão de areia dentro de uma ostra, as palavras devem construir e transformar, essa é sua função.

Da boca para fora
Faça um teste: saia às ruas e pergunte às pessoas por que a sustentabilidade é importante.

Duvido não encontrar uma menção sequer ao "futuro dos nossos filhos". O futuro dos nosso filhos está sempre lá, nas frases das multidões, indefinido, pairando na esfera etérea de um temor misturado a um tempo nunca presente e nebuloso.

Repare, no entanto, que algumas ideias  podem se esconder nessa fala singular com terrível evidência: que só conseguimos pensar no planeta por aquilo que tange ao nosso (des)conforto mais pessoal e próximo. A imagem mental e emocional que nos mobiliza para o bem da humanidade e do meio ambiente é a de nossos bebês, e não a da própria natureza e população em risco. Não há algo de estranho ou ingênuo nisso?

Também neste pensamento, sem saber replicamos uma velha mentalidade utilitarista da natureza: temos que cuidar da natureza para nossos filhos usarem no futuro, de modo passivo, cuidar para alguém poder usar com tranquilidade. Poucos falam "temos que cuidar para nossos filhos continuarem cuidando" ou "temos que ensinar nossos filhos a cuidarem quando chegar a vez deles de cuidarem". Algo muito sutil, mas perceptível.

Outro ponto fundamental da questão é que sim, a sustentabilidade é sem dúvida algo também para o futuro, para as próximas gerações, representada por nossos filhos. Mas sua importância passa antes e urgentemente pelo agora. Nesta busca, desafio encontrar alguém que admita que a sustentabilidade é algo importante para o presente, para os pais dos nossos filhos. Ao falar da sustentabilidade como um problema que deve ser resolvido por causa de uma situação futura, podemos sem querer, afirmar que a questão não é tão urgente ou que quase não existe no presente. Por trás da sustentabilidade para nossos filhos, pode se esconder a crença fácil de que hoje está tudo bem, o problema mesmo só virá no futuro, quando o tempo de nossos filhos (e entenda-se aqui, netos, sobrinhos e etc.) chegar.

Da boca para dentro
Façamos então um exercício diferente, saia às ruas, mas não pergunte às pessoas sobre sustentabilidade. Pergunte sobre o futuro de seus filhos, o que as pessoas estão fazendo hoje, praticamente, para garantir o futuro de seus filhos.

Espante-se quando a maioria das respostas caminhar rumo a um modo de proteção e sobrevivência individual, frente às adversidades já esperadas. (Espere, mas não estava tudo bem no presente?). Proteções e garantias que já se anunciam para o futuro dos filhos: a condição da educação diferenciada, a garantia ao sistema de saúde particular, o acesso aos bens de consumo de ponta, às belezas naturais intocadas, disputadas em algum paraíso internacional. Itens praticamente descolados da previsão de um futuro sustentável, qualidade de vida e bem estar coletivo, que esperávamos para o mundo em que nossos filhos iriam viver. Mas, peraí, o futuro dos nossos filhos não tinha tudo a ver com sustentabilidade quando perguntávamos sobre a importância da mesma?

Quando perguntamos sobre o futuro dos nossos filhos, nos vemos já esperando e preparando-os para um futuro completamente insustentável. Será que nisso não pressentimos o desfecho do atual de um presente já comprometido? Será que no fundo estamos agindo no presente para a sustentabilidade do futuro dos filhos ou nos preparando para a insustentabilidade, de forma paliativa, resignada, privada e egoísta?

Olhe bem: a primeira pergunta, sobre a importância da sustentabilidade, evoca imagens de um belo planeta esperando para ser usado por nossos filhos em um tempo muito distante, enquanto que a pergunta concreta sobre a relação do presente com o futuro da próxima geração traz a tona preocupações bem mais sérias e imagens ameaçadoras. A contradição examinada nestas falas nos mostra que nem mesmo sabemos no que acreditamos, e a distância entre os discursos e crenças se confundem em um estranho jogo de esperança, medo, autoengano e ilusão. Tudo isso salpicado de frases clichês e porções midiáticas de fantasia sobre a realidade.

O leão amazônico espera calmamente
Desconfio que ninguém quer estar aqui quando o tempo da sustentabilidade (aquele do futuro dos nossos filhos) chegar.

Os pais se preparam para um mundo mais desigual, mais insustentável, carente e com disputa de recursos naturais: terra, água, comida e energia elétrica para seus filhos. Desconfio ousadamente, (admito), que o futuro econômico, social e cultural que os pais preparam e no qual depositam sua tranquilidade é na verdade um seguro contra as coisas que estão deixando de fazer hoje. Um seguro para protegê-los dos problemas de insustentabilidade que já temos hoje. Mas poucos conseguem imaginar que a busca da sustentabilidade tem tudo a ver com estes mesmos problemas que querem evitar para os filhos, dos quais buscam protegê-los no futuro. Parece óbvio, mas não é.

Por outro lado, se nosso agora refletisse a ação para uma melhora mais sustentável, talvez estivéssemos mais tranquilos e despreocupados em relação ao futuro, mas não é assim que o parece.

Enquanto a sustentabilidade for tratada como o supérfluo e nossas próprias palavras não refletirem essa consciência viva e real, continuaremos a pensar nela somente como algo importante para o futuro de nossos filhos, enquanto de soslaio, um leão amazônico nos espreita, mais perto do que nunca. O leão amazônico é a própria fantasia da natureza que dizemos proteger, sem conhecer a fundo sua real dimensão, suas interações e até mesmo sua veracidade. O leão amazônico é a imagem mental que nos levará diretamente para sua cova, confrontando os clichês e slogans publicitários sobre sustentabilidade com a gravidade do momento e da realidade. Por enquanto, ele ruge.

O futuro dos filhos de todo mundo
É por isso que ao comunicar para a sustentabilidade, temos que fazer um revolução em nossa própria maneira de pensar, sentir, avaliar, comunicar e construir ideias e conceitos. Temos que estar mais acordados, ao menos para perceber os absurdos que saem de nossas próprias bocas, isso é tarefa nossa.

Penso que talvez fosse mais sensato relacionar a sustentabilidade, não só com o futuro, mas principalmente com o presente, e não só com nossos filhos, mas com os filhos dos outros também. Com a coletividade, de modo mais altruísta, humano e realista e atual. Mesmo diante do estranhamento, amar os filhos dos outros como amamos os nossos, talvez converse melhor com a ideia de sustentabilidade do que temos tanto falado e feito até agora. Ser sustentável só por causa do futuro dos nossos filhos, no fundo no fundo, pode não ser tão sustentável assim. Se há um bom motivo pelo qual a sustentabilidade, na profundidade de seu conceito, é importante, é por causa do presente dos filhos dos outros.

Comunicar deve mover algo. Façamos outras perguntas, cheguemos a outras respostas, da superficialidade na fala e na reflexão não passaremos um passo em direção à sustentabilidade.

Por Caroline Derschner Videira.

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domingo, 4 de novembro de 2012

Sandy e o medo das mudanças climáticas


O furacão Sandy passou pelos Estados Unidos, mas deixou parte de seu rastro em toda a comunidade global, que, perplexa, assiste a fragilidade dos sistemas e estruturas nas quais sempre depositou grande parte de sua tranquilidade e segurança.

Em uma sociedade desacostumada com a ausência de controle sobre quase todas as circunstâncias, a passagem do furacão desperta um sentimento ímpar, que destoa da correria cotidiana como uma grande pausa, um silêncio e uma incerteza íntima, que incomoda até mesmo as consciências mais endurecidas.

Surpreende, no entanto, que as vozes que se propagam nos meios de informação, principalmente aqueles de grande escala, reagiram com excessiva cautela à associação do fenômeno com as mudanças climáticas. Surpreende que a negativa a esta consideração, tenha tomado quase tanto espaço quanto a discussão da relação entre Sandy e o agravamento das mudanças climáticas. É possível tentar esconder o tema do aquecimento global das pautas e manchetes, mas não é possível esconder o medo e assombro que se revela nestas próprias tentativas. As pessoas têm medo.

Medo das mudanças climáticas? Do imprevisível na natureza? Da sujeição a um sistema do qual não temos controle? Creio que sim, mas não completamente. O primeiro medo, que desatado se revela aos olhos, é de outra natureza.

O primeiro medo vem lá do fundo, da sala escondida no edifício do espírito de nosso tempo, indicando que “não temos razão”. Pois se ficar comprovado, que sim, o aquecimento global e as mudanças climáticas estão em curso, toda uma legião, principalmente de lideranças, verá estampada em suas faces, a vergonha indelével de ter errado e persistido no erro.

Tanto os formadores de opinião, quanto parte da opinião pública, temem, pavorosamente, terem feito tudo errado, o tempo todo.

É ingenuidade atribuir aos grupos petrolíferos, por exemplo, o topo de uma cadeia de responsabilidade. Está tudo errado, estamos todos errados. Pois as mudanças climáticas não provêm de fonte única, elas são resultado de uma intrincada rede de efeitos em desequilíbrio, de múltiplas contribuições.

O medo que vem primeiro, mesmo inconsciente, parece vir do reconhecimento de que deveríamos estar fazendo tudo diametralmente diferente do que estamos fazendo agora, nossos governos, nossas indústrias, nosso transporte, nossas vidas.  O medo não é somente em relação a constatação do aquecimento global, o medo que vem antes é um receio generalizado sobre nossas ações, em todos os âmbitos.

Uma vez reconhecido este medo, outros medos, provavelmente ligados à urgência da situação, virão. Mas nem mesmo ainda este primeiro medo conseguimos reconhecer com clareza, pois estamos cegos pelos medos do ego, que saltam à frente e obstruem a percepção da realidade. O medo de estar errado é um deles.

Todos os líderes internacionais estão plenamente cientes do comportamento climático e das catástrofes naturais, validadas pela comunidade científica. Não é novidade, não há motivo para espanto. E o argumento central dos céticos das mudanças climáticas, que afirma que Sandy poderia ter ocorrido mesmo em condições normais, é apenas uma construção de linguagem, silogismo fechado em si mesmo. Um malabarismo racional que qualquer bom advogado é capaz de fazer com maestria para provar qualquer coisa. Tudo poderia acontecer mesmo sem o aquecimento global, a terra poderia mover suas placas tectônicas, um meteoro poderia cair, as espécies poderiam entrar em extinção sem o aquecimento global e as mudanças climáticas. Sandy poderia ter ocorrido fora de qualquer cenário com relação ao aquecimento global, mas acontece que ele não ocorreu. Estamos em uma conjuntura de mudanças climáticas, só por isso o furacão Sandy, uma ocorrência climática, não poderia ser analisado fora dela. O fenômeno que vivemos agora, algo extremamente peculiar na história da humanidade, é uma variável impossível de se isolar na análise do fato.

A bandeira do “senão”, neste caso, é tecida com panos quentes. Pelo senão, todo o improvável se sustenta e todos os argumentos são postos em contradição. Há quem compre o argumento e se orgulhe em sair repetindo por aí os clichês e bordões que inflamam a arena em que se debatem os prós e contras da grande mídia. Isso é um esporte. Mas as mudanças climáticas são alheias às nossas distrações, elas prosseguem objetivamente.

Enquanto isso, uma legião de apavorados mal sabe se usa as mãos para fechar os próprios olhos, ou os olhos dos outros.

Para encerrar, um vídeo sem nenhuma palavra, para conversar em uma outra linguagem sobre aquilo que ninguém quer falar:




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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cinquenta tons de Carminha

O que se fala. Por que se fala. Por que se ouve.

Em um passado, sim, muito distante, o silêncio ainda era uma qualidade. Símbolo de honradez, honestidade e exatidão, falar pouco era a medida da sabedoria. Em sociedades que falavam tão e somente o necessário e útil havia pouco espaço para a mentira, a fofoca e a corrupção. Hoje o silêncio, quando não incômodo, soa estranho. Falar sobre outra coisa, que não o que se fala, parece fora de propósito. E não se falar sobre o que se fala em todo lugar —melhor nem falar sobre isso.


Não é a toa que em alguns mosteiros e retiros existe o voto de silêncio, como um esquisito remédio a ser tomado de vez em quando, com toda razão. O silêncio é o exercício ideal para se chegar à essência das coisas, ao seu núcleo principal e inalterado. Através dele recordamos que sentir e ser vêm primeiro do que mostrar e demonstrar algo ao outro. Hoje em dia, invertemos este fluxo. Pois se parássemos para sentir... Ah se parássemos.

Nesse imenso falatório no qual submerjo todos os dias ao desbravar a rotina cotidiana, Carminha e Cinquenta Tons de Cinza me perseguem. Tento fugir, mas quando não estão no discurso uníssono das trivialidades, eles me encontram em carne, osso, páginas e pixels. No metrô, logo de manhã, Carminha, Tufão e Nina já estão nos televisores, em pleno veneno, quando mal descolei as pálpebras da noite anterior. No horário político, a propaganda eleitoral de um candidato a prefeito de minha cidade, cita as palavrinhas mágicas: Tufão, Carminha e Nina, e assim ganha o Brasil. Na manhã seguinte, Arnaldo Jabor, na voz do rádio, pergunta quem será punido ao final do julgamento do mensalão, Carminha ou José Dirceu? Carminha compete com o horário político, com o julgamento do mensalão. Sem dúvida sairá vitoriosa, sua audiência sobre eles é garantida.

Com os enésimos exemplares de Cinquenta Tons de Cinza é um pouco pior. Como eles não dependem de televisores, se espalham como gremlins pela cidade, e em qualquer lugar onde eu esteja. Outro dia uma moça, de olhos arregalados, lia o livro enquanto atravessava a faixa de pedestres em plena Avenida Paulista. No mundo em que eu vivo, a sociedade se enamorou facilmente pelos lazeres perversos destes dois produtos culturais. Ambos são a expressão legítima de um mesmo querer: quanto pior, melhor. Ambos celebram e atestam o gosto pela dor, seja na trama ou na própria experiência que proporcionam ao público, que encontra no sofrimento um objeto de fruição.

E Cinquenta Tons de Cinza está na capa da revista de maior circulação do Brasil. Um assunto de importância Nacional. Sem surpresa, políticos foram convidados a darem seu depoimento sobre a obra. Carminha está no horário eleitoral, Cinquenta Tons de Cinza na boca da Ministra do Meio Ambiente (algo tão assombroso de se colocar em uma pauta de revista que chego a duvidar de minha sanidade neste momento). Cinquenta Tons de Cinza e Carminha são atores políticos. Estão na boca dos políticos. Ocupam espaços políticos.

Não demora muito para que comunicadores, jornalistas e todos nós repitamos um pouco mais dessa ladainha que nos cerca, afoitos por assuntos fáceis, aceitação social e venda de capas de revista. Mais e mais, falamos sobre o inútil, comunicamos o vulgar. Reafirmamos um presente vazio. Tijolo por tijolo, moldamos um futuro influenciado pelos fenômenos culturais do hoje. Se todos os best-sellers e sucessos de audiência são retrato de uma época e a linha guia para uma próxima, por que pensar que com estes será diferente? Através de um fenômeno, é como se disséssemos coletivamente, “É disso que gostamos, é isso que queremos ser”. Um belo futuro nos aguarda, repleto de Carminhas e do decadente e vazio personagem de Cinquenta Tons de Cinza, que conversa conosco enquanto Carminha conversa com nossos filhos toda noite pela televisão. Careta? Conservadora? Me chamem do que for, quero Carminha e Mr. Grey ou qualquer pessoa parecida com eles bem longe de mim. Talvez tenha que evitar muita gente no futuro, concluo. No invisível que a cultura deixa no ar, moldamos o visível. Sempre.

E mesmo a mim, que não vejo a novela, não escaparei desta construção. Ao contrário. Hoje à noite ao fechar os olhos, de forma bem visível e teimosa, Carminha mais uma vez estará lá, como um retrato do dia, grudada em minha retina. E de lá, mais uma vez, com a paciência que nem sei de onde tiro, tentarei lhe arrancar em busca de mais amor. Por favor.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Arremate


(Continuação de "Alinhavo")

Era seu primeiro dia na casa, mas ali em meio a caixas fechadas e paredes em branco, Sara vivenciava um entre-espaço até então nunca experimentado. Era ela mesma em período de espera.

Caixas fechadas como uma respiração suspensa no ar, que aguarda um novo expirar. Ansiedade talvez permeava seus sentimentos, mas ela calmamente apenas aguardava com os olhos postos nos cantos, cheios da mudança que havia tomado todos os espaços.

Teria ela também mudado para acompanhar a mudança de casa?

Sara era só intervalo.

Entre um arremate e uma nova costura há sempre uma pausa, necessária, refrescante, bem vinda. E ela estava ali, de agulha pousada sobre os joelhos, com os dedos salpicados de pontadas resquícios que o tempo junta e guarda nas mãos de quem coze o cotidiano.

A casinha trazia novos ares, nova fazenda se desdobrando como o melhor futuro possível. Abriu as janelas, que seria dali para frente? O ar entrava e mesclava o aroma de jardim travesso e agridoce com a poeira arrebatada pelo chão. O ar volvia o sol e o céu e Sara observava as partículas de tamanho visível que se exibiam para a luz.

Chega de devaneios.

Muita coisa para limpar, rotinas para virar do avesso, ali tudo teria de ser diferente, a começar pelo espaço, bem menor que seu apartamento. As caixas trazidas denunciavam todos os excessos na vida de Sara e de igual maneira a falta de vida onde coubesse tudo aquilo: cursos de espanhol, aparelhos de ginástica, aulas de bordado, livros de finanças. Quantas Saras poderiam sequer vivenciar metade daquilo com tranquilidade e ainda ter tempo de cerrar os olhos no meio de uma tarde fria em uma poltrona macia?

Tinha fome, mas a geladeira estava vazia, mal a tinha ligado na tomada. E o gás, os armários, toda uma casa aguardava as diretrizes de Sara sobre o desconhecido. E cada escolha era um suplício, definição de uma identidade —ao menos na publicidade era assim: chocolate: carência afetiva; pizza para um: olho maior que a boca; saladinha: utopia demais para o momento. Sara olhou em volta, nem sabia por onde começar.

Mas isso era bom sinal havia lhe dito um amigo, guru das horas aflitas: “Se não sabe por onde começar, ótimo, sinal de que há muitas boas opções disponíveis” dizia ele. Mas Sara estava cansada dos excessos, até de opções. Agora preferiria um script, quadrado, rigoroso e infalível: “O que fazer quando mudar de casa”, ou melhor ainda, “O que fazer primeiro quando mudar de casa”. Seriam ótimos títulos de livro.

De volta à vida real, melhor fazer supermercado. Sabe se lá quantos dias passaria isolada, quiçá afastada da sociedade, em meio a tantas caixas de memórias, brincava ela em pensamento.

Enquanto imaginava o que trazer para casa em uma lista rabiscada de canto de mesa, lembrava das costuras, como sempre.

No arremate, que antes de dar por finda a linha, torna para trás mais um pouco, como quem diz que ali, num tiquinho do que já se foi, algo permanece e com isso está seguro, Sara se encaixava perfeitamente. Ela também estava em arremate desde que comprara a casinha, mas faltava-lhe a voltinha, aquela que retrocede alguns passos para lembrar do que se foi, e do que continuará levando quando mais à frente trocar de linha.

Enfrentou a mudança abarrotada a sua frente com olhos altivos e coragem súbita. Melhor começar pelo passado. Pelo que se foi e ainda é, e pelo que agora não será mais.

Espiou duas caixas vazias, repositórios ideais do que ficaria consigo e do que seguiria em frente. Começar pelo recomeço parecia a melhor e mais sensata alternativa dentre todas as outras. Se há excesso de opções, reduzir ao “sim” ou “não” era tudo o que precisava naquele momento.

*Este texto é continuação do texto "Alinhavo"



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domingo, 8 de julho de 2012

Alinhavo


Estava passeando naquela rua por acaso. O dia havia se alongado e entre um compromisso e outro, pequenos instantes foram guiando os passos de Sara por um bairro tranquilo, rumo ao desconhecido.

Os pensamentos foram se afrouxando. Ela diminuiu o ritmo e enquanto caminhava pela calçada ladeada de lojinhas,  decidiu “dar-se” aquele dia de presente. 

Pensando melhor, um dia inteiro talvez não pudesse, mas aquelas horas pelo menos...

Então se deixou levar por uma coisa e outra que avivavam seu passeio e abriam uma pequena fresta em seu coração. Um bibelô charmoso em uma vitrine, flores nascidas na calçada, uma costura bem feita em um vestido, o cello tocando dentro do ambiente de uma gostosa livraria...

E assim foi. Não comprou nada, não queria nada, bastava-lhe a beleza e o esmero das coisas vistas.

Há muito que andava afogada... Mas aos poucos, as muitas nuvens caóticas, repletas de
urgências, atropelos, palavras atravessadas, incompreensões e desencontros, iam ficando
para trás. Até a memória doce (e não sem sentido, a mais dolorosa) de seu ex-namorado,
principiava sumir e desbotar aos poucos, como água de banho quando escorre entre os dedos,
ele também, em meio aquele lento passeio, agora ousava liquefazer-se.

A beleza do passeio que quase sustentava seus passos numa leveza avessa
ao cotidiano da cidade, valsando seu vestido pra lá e pra cá, levou-a sem saber, justamente
ao encontro silencioso daqueles lugares em que queremos estar, mas não sabemos exatamente como chegar.

Foi quando, sem se anunciar, num vislumbre apressado de uma casinha branca em uma vila,
essa nuvem, junto às outras de pouco afeto, contraiu-se em um último átomo restante e
sumiu no paralelepípedo.

Num pedaço de rua, por um triz de segundo, quando quase ia deixar-se ir mais à frente
sem reparar na casinha branca, seu ser estancou na calçada. Naquele instante foi como se seus olhos, impregnados da visão daquela casinha de vila, aquietassem-se.

Naquele momento, enquanto um gato gordo e listrado vagarosamente inspecionava seu território, Sara abriu as mãos sem perceber e deixou cair delas as últimas memórias gastas
que carregava consigo, com os olhos fixos na casinha.

Ela tinha uma sacada com trepadeiras e muitas folhas secas na entrada. Parecia estranhamente abandonada, e mesmo assim, conservava algo que chamava Sara para perto de si - havia alguma vida naquele lugar. Ela caminhou alguns passos até o portão baixo e antigo da casinha, e olhou para dentro, esquadrinhando com a visão e os ouvidos qualquer sinal de que a casa fosse habitada. Mas ao ver uma placa imobiliária caída no chão, bem próxima à porta de madeira, desconfiou que a casa talvez estivesse à venda. E não estava errada.

Não demorou muito para que pegasse o celular e ligasse para o número indicado na placa.
Enquanto o telefone chamava e ninguém atendia sua ligação, podia sentir a calmaria que
habitava aquele lugar: nenhum som que não viesse dos passarinhos parecia invadir aquela
ruela. A cidade e tudo mais havia ficado para trás, encapsulados em alguma bolha distante de
saudade e confusão, as buzinas, a poluição e seu ex feito fantasma, aguardavam todos do lado
de fora, sem se atrever a adentrar a simpática vilinha.

Alguém atendeu ao telefone do outro lado da linha.

-“Alô” 

Disse Sara ainda receosa do que deveria dizer... E como quase sempre fazia, as vezes com
sucesso e outras nem tanto, disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

- “Eu só queria dizer que achei o telefone de vocês em uma plaquinha, em frente a uma casa,
aqui na Rua Madressilva...”

-“A senhora está interessada em um de nossos imóveis?”

Sara não sabia o que dizer, talvez estivesse ha tanto tempo interessada em tanta coisa. Uma
delas era mudar de rota, contornar o fio de sua vida e leva-lo para outra direção, mas mudar de
casa? Assim, dessa maneira? Havia tantas contas pra pagar ainda, e não sabia nem ao certo
se devia mudar de profissão. Sara gostava do trabalho no escritório de publicidade, mas queria
trabalhar com outra coisa, só não sabia ao certo o que era. Já havia pensado muitas vezes sobre
isso, mas quando tentava explicar o que sentia ou botar os pensamentos em ordem, era tomada por um mar de sensações difusas, coloridas, cheias de cheiros e tecidos. Não sabia por que, mas demorava-se sempre nas lojas de tecido, observando as texturas, as cores e imaginado todas as coisas que poderia fazer com meio metro de pano colorido, tesoura, agulha, linha e...outro tipo de vida. Uma que não era aquela, uma na qual pudesse ficar um pouco mais em silêncio consigo mesma, e dar outro contorno aos próprios modos, hábitos, gostos...a própria mente talvez.

Uma vida que não a fizesse ver tudo com os olhos de quem precisa sempre vender algo a
alguém. Cá com ela mesma, parece que havia deixado de ser publicitária há muito tempo, só
não sabia quanto ainda demoraria para contar a verdade a ela mesma e aos outros.
Principalmente ao seu chefe, que tinha tirado seu sono na noite anterior por causa de um
anúncio de chiclete. Se ela não gostava de chiclete, como iria convencer os outros de que
aquele chiclete horroroso era “uma explosão de sabores exóticos e envolventes como você
nunca experimentou”?

No mundo de Sara e de seu chefe tudo tinha que ser envolvente: do sorvete ao papel higiênico, tudo era “imprescindivelmente envolvente”, mas Sara estava cansada das coisas
imprescindíveis e envolventes. Poderia se viver sem elas? (talvez não sem o sorvete!) Mas
aquela oferta sensória e infinita das coisas compráveis e que ninguém poderia viver
sem, das ofertas imperdíveis, dos lugares inevitáveis, das últimas promoções, tudo se misturava e esgotava algo de vital em Sara, que nem mesmo ela sabia ao certo o que era. O gato gordo deu um bocejo concordando, ele também estava cansado de tudo aquilo.

Sara sentiu os pés pisando firme o paralelepípedo. Destino são fios, é costura, isso era tão
claro... E se é verdade que a toda costura se precede um alinhavo, podia senti-lo agora debaixo dos próprios pés no paralelepípedo; atrás de si nas trepadeiras preguiçosas que descortinavam parte da casinha; no gato que agora dormia, inebriado pelo lusco fusco dos pensamentos de Sara (minúsculos foguetes elétricos explodindo em série por cima de sua cabeça). Puxou o fio, arrematou e cortou a linha.

-“Sim estou.” 

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sábado, 16 de junho de 2012

Abelhas na Rio+20


Um fenômeno chamado "Síndrome do Colapso das Colônias" tem acometido as abelhas nos EUA nos últimos anos. Cientistas verificaram que as colônias estavam diminuindo por conta do desaparecimento repentino das abelhas, sem saber como ou o porquê do fato. As informações publicadas recentemente pelo Estadão, indicam que o fenômeno pode ser atribuído ao uso do inseticida thiamethoxan, comercializado no mundo há mais de dez anos. De acordo com a reportagem, ao entrarem em contato com o inseticida, as abelhas ficariam desorientadas e se perderiam no caminho de volta para suas colméias. 

A reportagem é um pequeno retrato do conceito de interdependência e complexidade, fundamental para o entendimento de qualquer discussão sobre desenvolvimento sustentável. Mais do que um conceito, não há como se pensar em ações para o desenvolvimento sustentável que não sejam concebidas desta forma. O "fazer" não interdependente inviabiliza até a melhor das ideias e decisões sobre o tema. 

No entanto, nas empresas, governos e no comportamento social, o receio é geralmente o mesmo: ou todos promovem a mudança para o desenvolvimento sustentável ou ninguém se atreve, pois mudar sozinho é algo sentido com insegurança e, quase sempre, considerado economicamente inviável.

Se um dos pontos centrais das discussões da Rio+20 é saber como equacionar desenvolvimento social e consumo com a preservação ambiental, sem dúvida seu pano de fundo é a compreensão sobre a necessidade do fazer sistêmico e integrado. Em outras palavras, da necessidade do salto em conjunto. Que seria a desejável substituição do famoso "eu só vou se você for", por um "eu vou, quem vem comigo?". 

Mas e as abelhas? Elas invadiram a conferência? Uma pena que não, pois observá-las seria muito valioso para o bom andamento dos debates na Rio+20.

O caso do desaparecimento das abelhas é o melhor exemplo de como apenas uma pequena interferência dentro de um sistema complexo, pode causar o colapso de uma colônia inteira. Mais que isso, o impacto múltiplo de uma única variável nas colônias de abelhas, é capaz de resultar no declínio da polinização de espécies vegetais, e consequentemente na produção de alimentos em todo mundo, atingindo o abastecimento da população.

Já sabemos que nosso sistema integrado, o planeta em que vivemos, está exposto há muitas interferências negativas, todas elas de influência interdependente, sem exceção. Pessoas, abelhas, geladeiras, carros em oferta e sacolinhas de supermercado. Falando a grosso modo, tudo influencia tudo. Em contrapartida, quais são as influências positivas que nós estamos oferecendo para anular estes efeitos de ação interdependente?

Quando falamos em definições para a Rio+20, a opção dos líderes internacionais por um "não fazer" ou "adiar até 2000 e mais um pouco", deixando a responsabilidade de atingir metas para uma geração futura (metas pensadas para uma configuração de mundo, que na época destas gerações não será mais a mesma) é uma falácia, ou no mínimo uma grande incompreensão.

Incompreensão sobre o fato de que decisões como as que rumam o desenvolvimento sustentável, precisam ser plurais e conjuntas para funcionarem. Precisam trafegar livremente e com consentimento por diferentes esferas da vida em sociedade, sem travar em pontos obscuros ou mal resolvidos desta rede. Em resumo, não é possível que somente certos setores, como a sociedade civil organizada ou parte do empresariado optem por decisões de caráter sustentável, portanto sistêmico, se outros pontos desta rede, conectados de forma interdependente, obstruam a efetivação destas ações. E isso pode ser feito, muitas vezes não de forma deliberadamente mal intencionada, mas apenas inoperante nem por isso menos danosa.

Há incompreensão sobre o fato de que o "não fazer", "adiar" e "só dar o passo quando todo mundo for", também é de alcance sistêmico e causa grande impacto. Um único "não" fazer", pequena variável introduzida em um organismo complexo, tem ação interdependente e multiplicada em seus efeitos e influencia de forma peculiar o resultado final.

O mais interessante, voltando para as abelhas, é que uma das etapas resultantes do processo de intervenção no seu ciclo de vida, é a perda de capital econômico para nós humanos, através da alimentação. Em outras palavras: perda de dinheiro. Pequenas relações de causa e efeito se ligam em uma cadeia sem fim entre processos, pessoas, materiais e recursos, nada está desligado. É por isso que todo o dano socioambiental, em algum momento, apresenta uma manifestação também na forma de um resultado econômico. Não há separação entre o que chamamos de recursos, financeiros, humanos ou ambientais, todo dano custará, em algum momento, algo a alguém. 

Não há como fugir da complexidade, nem da natureza. Se nós separamos em nosso sistema financeiro a correspondência do capital com a vida real, o planeta não tem nada a ver com isso. Pois para sua lógica, recurso é recurso, abelhas são abelhas e chefes de Estado são pessoas com grande poder decisório sobre entradas e saídas destes recursos. Uma vez implementada uma ação, o sistema corresponderá de forma natural e sem desvios. O prejuízo desta separação fictícia entre financeiro, social e ambiental, vivenciaremos depois.

Se pensarmos nas abelhas do caso do inseticida, elas não levaram a substância citada para dentro de suas colmeias. Sua interação sistêmica foi da ordem do "não fazer" (que na vida social julgamos nula, quase sem impacto), as abelhas simplesmente se fizeram ausentes em suas colônias, ali onde eram necessárias, causando impacto em escala nacional. Isso nos mostra que a ausência, de pessoas ou atitudes, ou o que deixa de ser realizado, é também uma opção, uma ação que será invariavelmente potencializada pela estrutura da teia da vida, organizada de forma interdependente.

Agora, nos momentos finais que antecedem a Rio+20, chefes de Estado com decisões de impacto, da ordem do "fazer" e do "não fazer", levarão elementos, acordos e diretrizes de volta para suas colônias. Conscientes ou não no impacto de seus mínimos atos.

Esperamos que o alto zunido que agora ronda os bastidores e eventos da Rio+20, seja ao menos ouvido e compreendido pelas esferas de poder. Caso contrário, nos veremos em pouco tempo consertando não apenas um ou outro dano social, ambiental e econômico, mas tendo que refazer ponto a ponto, cada pedaço da teia amorosamente tecida para nossa sobrevivência que é a vida.

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